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Discreto e eficiente: Pituca tenta liderar Santos a final após apocalipse em 2023

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Discreto e eficiente: Pituca tenta liderar Santos a final após apocalipse em 2023Foto: Reprodução

SANTOS – Diego Pituca mal havia chegado com a família às geladas montanhas de Niseko, no Japão, quando anunciou uma pequena pausa no roteiro de férias na neve, aguardado com ansiedade pela mulher, Lidiana, e a filha, Maria Alice. No dia 7 de dezembro, ele repetiria um hábito já conhecido nos meses anteriores: passaria a manhã assistindo pelo tablet a um jogo do Santos, especificamente o que selaria mais um ano de permanência na elite nacional ou um inédito rebaixamento.

“O time tinha feito bons jogos e vencido Palmeiras e Flamengo. Como o último era em casa, pensei: ‘Na Vila, não perde…’.”

Pituca viu, a exatos 17.823 quilômetros de distância, não somente a derrota para o Fortaleza como o episódio mais doloroso dos 111 anos de história do clube, encerrado com marcas de revolta e violência pelos torcedores no entorno da Vila Belmiro. O passeio em família prosseguiu, mas o coração ficou ferido.

Agora, ele pode conduzir novamente o Peixe a uma final do Campeonato Paulista após oito anos – a última vez foi em 2016. A equipe enfrenta o Red Bull Bragantino na próxima quarta-feira, 17, às 20h30 (de Brasília), na Neo Química Arena, em partida única.

“Foi difícil acompanhar tudo de longe, ficava com aquela sensação ruim de não poder ajudar. Infelizmente os japoneses não me liberaram [na metade do ano], então sofri muito como torcedor. [A viagem] era um momento especial para elas, só que eu não tirava mais aquilo da cabeça. Ficava toda hora falando: ‘Se eu estivesse lá, se eu estivesse lá…’. Minha esposa até tentava me ajudar, mas o passeio ficou estranho depois disso”, conta em entrevista exclusiva na edição de março de PLACAR.

Santista por influência de um tio, numa família predominantemente corintiana, Pituca sentiu naquele momento a dor de um torcedor. Com um pré-contrato assinado com o clube desde julho, aceitou readequar as bases acordadas para ajudar na disputa da Série B, mesmo com o interesse de outras equipes da elite – o Internacional era uma delas.

“A segunda divisão para mim nunca foi um demérito. Eu queria voltar para o Santos, só isso. O [Alexandre] Gallo (executivo de futebol do clube) ligou para o meu empresário e marcamos uma reunião. Falei que gostaria de ajudar, fazer parte dessa reconstrução. O Gallo ainda brincou: ‘Eu sei que você tem outros clubes atrás, mas pensa no Santos também’. Eu falei que se não estivesse pensando no Santos não teria assinado um acordo cinco meses antes do término do meu contrato. E que só pensaria em algo diferente se não existisse o Santos no mundo. Ele respondeu: ‘Você é santista mesmo, né?’”

Aos 31 anos, o meio-campista canhoto nascido em Mogi Guaçu ocupa hoje um protagonismo inédito na carreira. Virou uma espécie de pilar do projeto que tenta reconstruir o clube após o cenário apocalíptico. Foi um dos 14 nomes contratados até aqui – o mais recente é o goleiro Gabriel Brazão –, em uma enorme reformulação promovida pelo presidente Marcelo Teixeira, eleito em dezembro.

O perfil de Pituca é tudo de que o Santos precisava: discreto, eficiente e sabe como ninguém como é sofrer no futebol. Ele tem uma trajetória incomum. Só teve a primeira chance em um grande clube aos 25 anos, contratado para jogar no time B do Santos.

Antes, havia atuado por camisas mais modestas do interior do estado, como Brasilis, Matonense e União São João, além do Botafogo de Ribeirão Preto. Chegou a largar o esporte para virar estoquista em uma loja de sapatos por três meses, e jogou a terceira e a quarta divisões do Estadual.

“Eu só não parei de jogar pelos meus pais. Não fossem eles, teria encerrado há muito tempo. Meu pai tirava o que comer de casa para me dar uma chuteira, enquanto minha mãe trabalhava de diarista. À noite ela saía para passar roupa na casa das pessoas. E eu tentando, tentando… Então tudo isso me motiva muito hoje. Quando cheguei ao Santos B, com 25, me chamaram de louco, mas eles seguiam lá me incentivando. Hoje sou um dos capitães da equipe”, lembra.

O agora camisa 8 – era 21 na primeira passagem – ganhou do técnico Fábio Carille a braçadeira, algo também inédito na carreira. Costuma ouvir provocações internas de companheiros pela dificuldade que tinha de falar, o jeito tímido, interiorano. E passou a ser elogiado justamente pela forma silenciosa como age.

“Quando voltei, o Carille me chamou dizendo que seria um dos capitães. Achei legal, só não esperava que no jogo contra o Botafogo-SP, o primeiro da temporada, eu já assumiria (risos). É uma responsabilidade a mais. O Renato (ex-volante do clube) brincou comigo que eu não falava nada na primeira passagem em que estivemos juntos, em 2017, e que agora quer um dia vir aqui para me ouvir falando. Não gosto muito de falar, mas acho que demonstro em campo”.

A passagem de três anos pelo futebol japonês fez nascer uma versão mais madura do jogador, dentro e fora de campo. No futebol asiático, passou a cobrar faltas e assumiu a condição de primeiro volante, atuando entre as linhas de defesa e de meio-campo, mais recuado do que nos tempos de Brasil. Mas impressionou mesmo na apresentação do último dia 9 de janeiro ao exibir um físico bem mais forte. Foram oito quilos de massa magra adquirida, com apenas 8,9% de gordura corporal, fruto de um trabalho com o preparador físico Tiago Franco.

Ele também precisou mudar drasticamente os hábitos alimentares. Em 2019, chocou a nutricionista do Santos ao dizer que se alimentava basicamente de fast-food e bolachas. Hoje faz uso de um anel com tecnologia para monitoramento do sono e da ansiedade, medindo os índices de recuperação diários.

“Em 2019 eu fugia da Alê (Alessandra Favano, nutricionista do clube), mas um dia ela ficou me esperando para me perguntar como era a minha dieta. Eu falei: ‘Digo a verdade ou minto?’. Ela me pediu a verdade, claro, e contei que era basicamente McDonald’s, Burger King e coxinha. Isso a surpreendeu: ‘Nossa, mas como você consegue correr tanto?’. Brinquei dizendo que era o meu combustível, mas, na verdade, quando eu saía de uma partida não aguentava mais nada. Precisava deitar e não conseguia nem levantar a perna. Eu fui tentando melhorar, mas quando fui para o Japão, onde o McDonald’s é ruim, comecei a mudar de fato. Conheci uma nutricionista que me ajudou a me alimentar melhor, fez um plano que eu pudesse seguir. Hoje peso o meu prato, como salada e é muito difícil comer alguma coisa fora”, relata.

Em campo, a melhora física é traduzida em mais minutos, nenhuma lesão e uma recuperação bem menos sofrida, apesar dos anos a mais. Atuou nos 12 dos 13 primeiros jogos do Santos na temporada, sendo substituído em apenas três deles. Só ficou fora diante da Inter de Limeira por risco de suspensão pelo terceiro cartão amarelo.

Na primeira passagem pela Vila Belmiro, Pituca foi anunciado em 2 de junho de 2017 de forma discreta: com uma foto publicada no site do clube assinando o contrato, sem apresentação oficial, apontado no texto como “destaque do Botafogo de Ribeirão Preto para o Santos B, comandado pelo técnico Kleiton Lima”.

Disputou a Copa Paulista daquele ano, mas não ganhou oportunidades na equipe principal, com Levir Culpi. Em 2018, recebeu de Jair Ventura a sonhada chance de vestir a camisa do clube de coração e encontrou com Cuca, meses depois, a primeira grande sequência como titular. Mas foi a chegada do argentino Jorge Sampaoli, em 2019, que mudou por completo a sua carreira. Foram 58 jogos, sendo titular em 54 deles.

“Sampaoli mudou a cabeça de todos porque é um cara muito intenso. Ele é difícil, mas conseguiu nos passar coisas que faziam o futebol ficar simples. Treinávamos, fazíamos a coisa certa e parecia que íamos para o jogo já sabendo que ganharíamos. Tudo o que ele falava acontecia. Ele conseguiu extrair minha melhor versão. É alguém com quem gostaria muito de trabalhar de novo, que chegava no CT às 8 da manhã e ia embora às 10 da noite”, conta o meia, elogiado publicamente pelo argentino

Na volta, este ano, ele iniciou uma parceria de sucesso com o volante João Schmidt, ao seu estilo: canhoto, de perfil discreto, quase da mesma idade (30 anos) e de longa passagem pelo futebol japonês. Um casamento perfeito. Segundo números do Sofascore, até a semifinal, Schmidt era o segundo em desarmes no Paulistão, com 34 registros, enquanto o camisa 8 somava 23. O líder no quesito é o argentino Aníbal Moredo, do Palmeiras, com 40.

“Eu o conhecia de jogar contra, sabia um pouco das características. É um cara que marca muito bem e também consegue sair com a bola. A gente deu tão certo que sempre nos perguntamos: ‘Como é que conseguimos nos entender tão rápido, hein?’. Respondo para ele que temos experiências parecidas, quase a mesma idade e características, tudo isso ajuda.”

Diego desconhece a origem do apelido que passou do avô para o pai e finalmente para ele, que era conhecido como Pituquinha na infância. “Ninguém sabe de onde veio, vamos morrer sem saber.”

O que o diverte mesmo é outra alcunha carinhosa: Pitukroos, uma brincadeira dos ex-companheiros em comparação com o alemão Toni Kroos, do Real Madrid: “É bacana, dou bastante risada. Tem memes sobre isso, sobre o meu sorriso. É uma coisa sadia, e ser comparado ao Kroos é motivo de muito orgulho. É um dos melhores volantes do mundo, pô.”

O casamento entre Pituca e Santos ocorreu pela primeira vez em 2017 e foi retomado em 2024. Mas bem antes disso, em 2011, quando estava no Brasilis, recebeu do ex-zagueiro Oscar, então gestor do clube de Águas de Lindoia, a notícia de que o Peixe havia se interessado por ele. Surpreendeu ao dizer que dispensaria a oportunidade para trabalhar e ajudar os pais. A união, porém, era inevitável.

“Pretendo parar com uns 35 ou 36 anos. E espero que seja no Santos, mas quero ainda estar em alto nível. Ainda quero ver a minha filha crescer depois disso, levá-la na escola e ir para a minha chácara. Não quero ser técnico, não quero mexer com futebol. Isso é uma coisa que sei que não vou fazer”, afirma.

Bem antes disso, há um objetivo claro: recolocar o Santos na elite. “Conseguimos nos classificar no Paulista com quatro rodadas de antecedência, mas o objetivo maior ainda é a Série B, colocar o Santos no lugar de onde não deveria ter saído, essa é a nossa meta diária e sabemos o quanto o caminho será difícil, porque são sete equipes de São Paulo.”

Pituca espera cumprir o que projetou, mas sabe que já devolveu ao machucado torcedor do Santos sua marca registrada: o sorriso. Como bom santista, ele só quer agora desfrutar após tempos recentes de dor.

A dor do vice e o título prometido

A Libertadores perdida para o Palmeiras, em janeiro de 2021, não sai da cabeça

“Ainda assisto àquele jogo inteiro contra o Palmeiras, acredita? Teimo em achar que não é verdade o que aconteceu naquele dia no Maracanã, mas às vezes estou pesquisando algo no YouTube, aparece o jogo como sugestão e acabo vendo de novo. Dói muito ainda aquela derrota, porque fizemos uma semifinal incrível contra o Boca Juniors e na decisão não conseguimos repetir esse desempenho. E, infelizmente, teve aquele gol sofrido no final.

Eu falo sempre: podem cruzar mais mil bolas para aquele cara (Breno Lopes) que não acerta aquela cabeçada. Não era para acontecer, mesmo, infelizmente não conseguimos o título. Só acho que pela campanha, por tudo o que passamos naquele ano para chegar até aquela final, merecíamos muito um desfecho melhor.

Foi um ano incrível para mim. Estávamos extremamente confiantes, pois havíamos passado também pelo Grêmio nas quartas. Infelizmente, as coisas não terminaram do jeito que gostaríamos. Eu brinco com o João Paulo que se vai para os pênaltis teríamos uma maior chance, acreditava muito nisso, mas tudo acontece no tempo de Deus.

Futebol proporciona isso. Eu falei que saí daqui devendo um título para a torcida, sei disso. Bati na trave duas vezes, na Libertadores e no Brasileirão, então voltei para pagar essa dívida e conseguir dar esse título para o torcedor. O Paulista e a Série B seriam muito bons, mas ainda não pagariam a minha promessa. Eu quero mais.

Meu maior sonho é ter o meu rosto pintado no muro onde estão os ídolos de verdade. Eles foram campeões e marcaram o nome na história. Então, quem sabe também não chego lá? Para isso preciso de uma Libertadores, de um Brasileiro… algo bem grande. Aí sim a dívida fica paga. E aí também vou me aposentar.”

Fonte: www.canalrural.com.br
O conteúdo acima foi originalmente publicado no CanalRural e indexado ao Alta Notícias

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